Depois de vencer o Goiás por 3 x 1, no Mangueirão, no último dia 23 de novembro, pela 38ª rodada do Brasileirão Série B, o Clube do Remo confirmou seu retorno à elite do futebol nacional. A grande mídia veiculou que o Leão estava há 31 anos sem disputar o Campeonato Brasileiro da Série A.
Porém, não é bem assim.
Até existe um sentido em considerar que a última participação azulina na elite do futebol nacional com o nome de Campeonato Brasileiro foi em 1994, quando o Remo foi rebaixado junto com o Náutico na Repescagem.
Todavia, entre 1994 e 2025, existe o ano 2000, com a realização do maior Campeonato Brasileiro da história em número de clubes, denominado Copa João Havelange.
CBF x Gama
Essa edição do Brasileirão começa em 1999, quando descobriu-se que o atacante Sandro Hiroshi, do São Paulo, tinha situação irregular na sua transferência do Tocantinópolis para o Rio Branco de Americana.
Isso provocou o bloqueio do passe do atleta, que saiu do Tigre da Paulista para o Tricolor do Morumbi. Mesmo assim, ele foi escalado nas partidas São Paulo 6×1 Botafogo, no dia 4 de setembro de 1999, e São Paulo 2×2 Internacional, no dia 10 de outubro.
Sabendo do caso de Hiroshi, o Glorioso e o Colorado conseguiram, por meio da justiça desportiva, reverter os pontos das partidas contra o Tricolor. Os cariocas ganharam os três pontos da goleada sofrida em campo e os gaúchos também levaram três pontos, um do empate na grama e mais os dois que estavam em disputa.
No certame daquele ano, o rebaixamento para a Série B seria pela média de pontos dos últimos dois campeonatos, 1998 e 1999. Nesse sentido, times que vieram da segundona do ano anterior seriam prejudicados na luta contra rebaixamento, casos do Gama e do Botafogo de Ribeirão Preto, pois só a pontuação de 99 contaria para o promédio.
Voltemos para o caso Sandro Hiroshi: com os três pontos que ganhou no tribunal da goleada de 6 x 1 sofrida contra o São Paulo, o Botafogo ultrapassou o Gama na média de pontos e se livrou da queda, decretando o rebaixamento do time do Distrito Federal.
Nasce a Copa JH
O Gama recorreu na justiça desportiva, porém, não obteve êxito. Entretanto, a equipe de Brasília conseguiu uma liminar na justiça comum para ser incluída no Campeonato Brasileiro da Série A do ano subsequente. Tendo um impasse nas duas esferas jurídicas, a CBF se viu inviabilizada de organizar a elite do ano 2000 e transferiu para o Clube dos 13 a organização da competição, com chancela da entidade máxima do futebol nacional.
A ideia era fazer um campeonato único com três módulos, que seriam as divisões, Séries A, B e C. O Gama não seria adicionado ao módulo principal, equivalente à primeira divisão, mas novamente os candangos conseguiram na justiça o direito de participar da Série A, no caso o Módulo Azul.
Entendo o formato da Copa João Havelange
A competição que substituiria o Campeonato Brasileiro de 2000 foi batizada de Copa João Havelange.
Formato: 116 clubes se dividiram em quatro módulos: Azul (Série A), com 25 clubes; Amarelo (Série B), 36 clubes; Verde (Regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste) e Branco (Sul e Sudeste) (Série C), com 55 clubes somando-se os módulos.
O Módulo Azul seria disputado em turno único e se classificavam os 12 primeiros colocados para a Fase Final.
Já no Módulo Amarelo, as 36 equipes participantes foram divididas em dois grupos de 18. Os oito primeiros de cada chave avançavam para os mata-matas, oitavas, quartas, semis, decisão do 3º lugar e finais. Todos em jogos de ida e volta. Os três melhores classificados subiriam para a Fase Final da Copa JH.
Inicialmente o terceiro módulo tinha 55 times, mas com a desistência do Interporto do Tocantins e do Rio Branco do Espírito Santo, o número de participantes caiu para 53. O Módulo Verde contava com clubes das Regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Por conseguinte, o Módulo Branco reunia equipes das Regiões Sul e Sudeste.
O módulo verde tinha quatro grupos de sete equipes, com jogos em ida e volta. Dois times de cada chave avançavam para a fase dois. Em seguida, no módulo branco, a divisão foi com quatro chaves de seis equipes e uma com sete.
A lógica era a mesma do verde: os líderes dos grupos se classificavam para a fase seguinte, mais os dois melhores segundos colocados.
Na fase dois, 24 equipes, 12 de cada módulo, se dividiriam em seis grupos de quatro times. Posteriormente, as oito equipes classificadas da fase dois fariam dois quadrangulares e os campeões de cada grupo decidiriam o título do módulo verde e branco.
O vencedor subiria para o módulo principal da JH.
Remo no Módulo Amarelo
O Clube do Remo estava entre os 36 times do Módulo Amarelo, classificou-se para o mata-mata na 7ª colocação do Grupo B, com 26 pontos, sete vitórias, cinco empates e cinco derrotas.
Na segunda fase, o Leão Azul Paraense eliminou o Figueirense, venceu por 4 x 1 em Belém e perdeu por 2 x 1 na Ilha da Magia.
Em seguida, outro time da Região Sul pelo caminho: os azulinos foram superados pelo Caxias na primeira partida por 2 x 1. Porém, no colosso do Bengui, vitória e classificação pelo placar de 3 x 0 e o Remo mediria forças contra o Paraná Clube na semifinal.
Essa competição que estamos contando, no caso o Módulo Amarelo, era na prática a Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro de 2000 (Copa JH). Desse modo, é preciso ressaltar também os critérios duvidosos de algumas participações.
O exemplo mais emblemático é do Fluminense, que, por ser membro do Clube dos 13, organizador da João Havelange, subiu direto da Série C para a Série A. O Tricolor deveria ser incluído no módulo amarelo (Série B), pois venceu a Terceira Divisão de 99, mas acabou pulando um degrau e entrou no módulo azul (Série A).
Entre outras situações de times que foram rebaixados da Série B para a Série C em 1999 e permaneceram na segundona. Casos de América-RN, Desportiva Ferroviária, Criciúma, Paysandu e União São João.
Voltando para o módulo amarelo, o Remo empatou o primeiro duelo contra o Paraná em Curitiba por 0 x 0 e dependia de apenas uma vitória para subir para a elite do futebol brasileiro. A peleja era tratada como uma disputa por promoção pela própria imprensa da época.
Observe a manchete do Jornal Diário do Pará do dia 5 de novembro de 2000.

O Leão foi derrotado pelo Paraná no Mangueirão por 2 x 1; todavia, o Remo ainda teria outra chance de disputar o módulo azul, pois, como mencionamos anteriormente, eram três vagas do módulo amarelo para a fase principal.
Acesso contra o maior rival
Na disputa do 3º lugar em dois jogos, o Leão encontrou seu maior rival na briga por uma vaga na elite. O Paysandu foi eliminado pelo São Caetano, que terminaria vice-campeão brasileiro.
Vitória azulina no primeiro RE-PA valendo a vaga no módulo azul, o Remo bateu o Paysandu por 3 x 2. O atacante Robinho anotou os três gols do Leão.
Com o empate por 1 x 1 no segundo jogo, a classificação remista foi confirmada.
A manchete do Jornal O Liberal do dia 20 de novembro de 2000 não teve dúvidas: “Remo sobe à elite”.

Tinha até pôster dos heróis do acesso e a frase: “O Pará na elite do futebol brasileiro”.

Leão vs Leão
Pelo módulo azul (Série A), o Remo enfrentou o Sport Recife nas oitavas de final. Porém, contra um dos melhores times da história rubro-negra, que havia sido vice-líder na primeira fase do módulo azul, os azulinos não foram páreo. No primeiro duelo em Belém, triunfo do Leão da Ilha de virada por 2 x 1.
Robinho abriu o placar para o felino da casa; no entanto, Sidinei e Marquinhos viraram para os visitantes.
Em Recife, o Sport repetiu a dose e venceu novamente, desta vez pela vantagem mínima, 1 x 0. Leomar anotou o gol único e encerrou a última participação do Clube do Remo na primeira divisão.
No papel uma coisa, na prática outra
A Copa João Havelange tinha no seu regulamento os módulos como braços de uma mesma competição; todavia, na prática ficou bem claro o que era Série A, Série B e Série C. Ademais, o nome Copa João Havelange era o nome fantasia do Campeonato Brasileiro de 2000, pelas questões judiciais que impediram a CBF de organizar aquela edição do Brasileirão.
A nomenclatura era diferente, mas a opinião pública sabia que tratava-se da principal competição do país e suas divisões de acesso, como mostramos nas manchetes do Diário do Pará e do Liberal.
Vamos para um exemplo prático de como as execuções dos módulos da JH são divisões diferentes.
Repare na imagem abaixo que a partida entre Clube do Remo e Paraná Clube, pela semifinal do módulo amarelo, não tem placas de publicidade oficiais da competição e sim placas de empresas regionais como a Cerpa e propagandas do governo do estado do Pará.

Na Série B do final dos anos 1990 e início dos anos 2000, era muito comum as partidas terem placas de publicidade da região ou quase nem ter placa, como na partida entre Jundiaí e Fortaleza de 2002 na imagem abaixo.

Por conseguinte, vamos observar as placas publicitárias da partida entre Remo x Sport, pelas oitavas de final da JH.

Aqui você tem uma placa com o nome da competição e outras com alguns patrocinadores como Brahma, Volkswagen e Itaú.
Na partida entre Flamengo x Sport, pela primeira fase do módulo azul, temos uma similaridade de patrocínios.

Assim, se, na teoria, as partidas entre Remo x Paraná (módulo amarelo) e Flamengo x Sport (módulo azul) são pela mesma competição, por que temos estéticas e tratamentos diferentes?
Concluímos que, por mais que o regulamento da JH, como já explicamos antes, dê a entender que os módulos eram grupos de um mesmo campeonato, a prática e a execução dos módulos foram feitas como se fossem o Campeonato Brasileiro de 2000 com divisões (A, B e C) e acesso previsto dentro do próprio certame, como aconteceu no Torneio Paralelo de 1986.
Havia sim um consenso de que o Remo disputava a Série B quando estava no módulo amarelo e de que conseguiu o acesso para a Série A quando se classificou para a fase final. Basta ver os elementos que nós trouxemos, como a cobertura da imprensa e os campeonatos realizados na prática.
Se pensarmos em Copa João Havelange como nome fantasia, podemos pensar no Módulo Amarelo como nome fantasia da Série B e no Módulo Verde-Branco da Série C.
Por fim, de maneira oficial, a última participação do Clube do Remo na Série A foi no ano 2000.
Então foram 26 anos de espera!
